MURILO MENDES: HOMO VIATOR

 

Raimundo Carvalho – UFES

 

 

Este texto não traz uma reflexão abrangente sobre os variados relatos de viagem que escreveu o poeta Murilo Mendes, nem sobre a importância que estes relatos têm na constituição do conjunto de sua obra[1]. O meu interesse é, antes de tudo, o de flagrar um certo olhar-o-mundo próprio deste poeta, que em outra ocasião chamei de “olhar vertical”[2], expressão que com variações se encontra na própria obra, numa autodefinição recorrente, como, por exemplo, “olho vertical”, “olho armado”, “olho fértil”, “olho precoce”, “occhi grifagni” (olhos de falcão, olhos penetrantes) e “retina lincea” (retina de lince). Uma das características deste olhar é a sua capacidade de ver para além do visível, para além do imediatamente dado, pois o poeta opera através de cortes, uma espécie de corte geológico que deixa visíveis as camadas do tempo escondidas no interior da terra.

Neste sentido, o olhar do viajante Murilo Mendes nada tem a ver com o olhar distraído e embasbacado do apressado turista. Trata-se de um olhar informado, atento, desde ao detalhe mais banal da paisagem até às grandes sínteses culturais. Um leitor menos avisado dos relatos de viagem murilianos poderia ver neles um mero esforço, um tanto quanto pedante, de descrição de locais turísticos e exóticos, feitos por um poeta que quisesse, usando das viagens, a todo custo europeizar-se. Nada mais inexato. Murilo Mendes traduz tudo o que vê em nossos próprios termos, isto é, numa visão bem brasileira, diríamos, mas sem reduzir o diverso, o outro, no mesmo. Com leveza e humor, o poeta nos faz partícipes de suas aventuras, que, para além de qualquer contingência geográfica, é sempre uma aventura textual.

Sérgio Cardoso, em “O olhar viajante (do etnólogo)”, partindo de Merleau-Ponty, destaca diferenças entre ver e olhar. O ver envolveria uma certa passividade: um olho dócil e desatento deslizando sobre as coisas. Já o olhar remeteria à atividade do sujeito que investiga e indaga para além do visto. O ver conota, portanto, ingenuidade e espontaneidade, enquanto o olhar deixa aflorar certo cálculo e malícia, ressaltando a atuação e o poder do sujeito. A visão “opera por soma, acumulação e envolvimento; busca o espraiamento, a abrangência, a horizontalidade, e projeta, assim, um mundo contínuo e coerente”. O olhar, ao contrário, “se enreda nos interstícios de extensões descontínuas, desconcertadas pelo estranhamento” e, em confronto, com a “dispersão horizontal da visão”, direciona e concentra o seu foco na verticalidade, ou seja, na temporalidade (simultaneidade e não sucessão temporal) que adensa a espessura do presente, feito de passado e porvir latentes em suas dobras, lacunas e indeterminações.

Assim, a viagem, que tem grande afinidade com o ato de olhar, “temporaliza a realidade reempreendendo a busca de seu sentido” e se transforma em experiência de estranhamento, que revela um distanciamento, não em relação ao “outro”, nem ao mundo circundante, mas um afastamento de si mesmo. O olhar do viajante que perscruta e interroga o que está a sua frente é também um olhar reflexivo que ousa mirar e interrogar as fissuras e fendas de sua identidade posta em questão. Portanto, a viagem nos ensina que só alcançamos o “outro” em nós mesmos, e que o “estranho” está inscrito “nas brechas de nossa identidade”.[3]

Partindo, pois, destas reflexões, rapidamente resumidas, que foram formuladas por Sérgio Cardoso para descrever a viagem etnológica, procurarei adentrar no texto da viagem de Murilo Mendes. Sirvo-me, portanto, de um neologismo para qualificar o olhar do viajante Murilo Mendes como um olhar “antropoético”, querendo expressar com isso a centralidade da figura humana, captada pelo olhar itinerante do poeta que dialoga com os seus mitos, sua história e suas realizações estéticas.

Pois é partindo do texto “Grafito em Tânger”[4], incluído em Convergência, que buscarei me aproximar do sentido da viagem para o poeta Murilo Mendes:

 

Desço na noite amarela

Onde a laranja sibila.

 

Vai este olho vertical

Divisando as tangerinas

                Veladas

De braços com os tangerinos

No silêncio horizontal

                Tangível.

Tânger tangida, ácida

Paisagem de portas redondas.

.

Surpreendo mais tarde Tânger

                Imóvel sem véus,

                Tangente à malinconia

                Temendo o tangolomango

 

Saio da noite amarela

Onde a laranja sibila.

                                Tânger 1963

 

Neste poema estão condensadas muitas das características do olhar muriliano que pretendo captar no ato mesmo de estar se vendo olhando, portanto, um olhar reflexivo que, ao olhar para o mundo, traduz o mundo e se traduz.

O que chama a atenção, primeiramente, neste poema, é a posição do sujeito em simbiose com o seu objeto – “Desço na noite amarela / onde a laranja sibila” – e ao mesmo tempo impondo um certo afastamento de si expresso em “Vai este olho vertical” numa clara auto-referência como se o olho fosse uma entidade externa e independente que o comandasse. A este “olho vertical”, entidade suprapessoal, contrapõe-se o “silêncio horizontal”, onde repousam os objetos da paisagem “Tangível”.

A esse mergulho – “Desço na noite amarela” –, uma espécie de tomada aérea, captando simultaneamente o espaço e o tempo condensados, segue-se outra expressão reverberante e sinestésica, “Onde a laranja sibila”, que torna compreensível o adjetivo “amarelo” aplicado à noite e convoca os ventos sem nomeá-los. Num texto de Poliedro, intitulado “A laranja”, o poeta afirma: “A laranja aparenta-se ao lustre de Baudelaire: um objeto circular, luminoso, que acende a imaginação”[5]. Em ambos os textos, a laranja é uma antítese da noite, um lustre que, ao mesmo tempo, ilumina, vibra e fascina[6].

Configurado o cenário, o olhar autônomo descobre “as tangerinas / Veladas / De braços com os tangerinos”, numa espécie de indistinção entre homens e paisagem, acentuada pela relação entre os substantivos “laranja” e os toponímicos “tangerinas / tangerinos”. O olhar do poeta vai “divisando”, na paisagem noturna de Tânger, meras silhuetas humanas, mas nem por isso desprovidas de expressividade, porque, com a sua carga de silêncio, elas impregnam todo o ambiente.

Tocar e ser tocado pelo silêncio de Tânger. Está aí expressa a profundidade do olhar “antropoético”, captando a trama invisível, percebida nos interstícios do nome: “Tânger tangida, ácida / Paisagem de portas redondas”. Está aí expressa a idéia que norteia o sentido da viagem. O poeta não se recusa a provar a acidez do contato com o estranho, com o outro, em que ele mesmo se desdobra, ao contemplar a paisagem inóspita de Tânger.

No segundo segmento do texto, o poeta procura nos dar uma nova visão da cidade, não isenta de sobressaltos, que se contrapõe, em certa medida, à visão anterior. Os versos “Surpreendo mais tarde Tânger / Imóvel sem véus” revelam uma aproximação maior, um possível desnudamento do objeto, sem que se desfaça a aura do mistério, de estranheza: “Tangente à malinconia / Temendo o tangolomango.

É interesse perceber como o poeta vai construindo o seu poema como uma composição gráfica, visual, mimetizando os movimentos do seu olhar planificado e perquiridor, desvelando tons e sobretons, num desenho de luz, sombras e cores, fazendo com que as palavras saiam umas das outras, numa trama de aliterações e aproximações fono-semânticas. Enfim, uma viagem que é puro texto, redesenhada na textura das palavras.

Uma consulta casual ao dicionário para checar o sentido da palavra “tangolomango” revelou-me, para meu espanto, o modus operandi subjacente a este poema: várias de suas palavras estão relacionadas na mesma página: tangente, tangerina, tangerino, tangível, e, inclusive, a palavra-chave tangolomango, reveladora de todo o sortilégio, de toda a trama. Quero crer que, inscrevendo a palavra tangolomango no seu grafito, o poeta possibilitou ao leitor fazer o caminho inverso até chegar ao topônimo Tânger, que, seguramente, desencadeou a consulta do poeta ao dicionário, tal como o próprio poeta relata em outro texto intitulado “Basiléia”:

 

Procuro em vão no dicionário o nome do natural de Basiléia. Vejamos: “basilar”, “basílica”, “basilicão”, “basilisco”. Detenho-me na palavra “basilisco”: s.m. Serpente fabulosa que, segundo se cria, matava com a vista, bafo ou contato.

Mas a vista, o bafo, o contato de Basiléia não matam, antes regeneram: tônico.[7]

 

Este é um procedimento comum aos diversos textos murilianos, sejam eles relatos de viagem ou algum texto crítico-poético sobre artistas de sua predileção. Murilo Mendes sempre faz uma exploração poética do nome próprio, revelando as suas virtualidades gráfico-sonoras e rompendo com a lei da arbitrariedade do signo lingüístico, como se a história e o destino de um homem ou de uma cidade já estivessem contidos nas letras de seu nome. Este tipo de operação mental, de pendor, muitas vezes, falsamente etimológico, tem uma longa história na tradição literária do Ocidente e Murilo Mendes atualiza-a[8]

Portanto, esse nome, pleno de ressonâncias culturais e naturais, se dissemina por todo o poema e possibilita a realização da viagem-texto, que é também uma imagem, um quadro. “Grafito em Tânger” termina com os versos “Saio da noite amarela/ onde a laranja sibila”, em simetria com os dois primeiros que abrem o poema, compondo, assim, uma espécie de moldura, em cujo interior se desenrola um drama, uma cena.

Enfim, com o texto, a viagem se prolonga, pelo trabalho imaginativo do poeta, em forma de devaneio. O olhar planificador e o gesto construtivo asseguram o registro da experiência, toda ela feita de indeterminações e reminiscências fugidias. O humor revela simpatia e espanto. No caso de Tânger, o poeta nos dá um retrato noturno, não isento de melancolia.

Interessante observar que, diferentemente de outros poemas, não há quase nenhuma referência a monumentos arquitetônicos, exceto uma vaga “paisagem de portas redondas”. Não há também nenhuma referência histórica ou mitológica explícita, como nos demais poemas sobre outras cidades do Marrocos, em que abundam elementos dessa ordem[9]. Creio que isso acontece porque, se nas outras cidades visitadas a experiência da alteridade se dá em sua forma exterior, através do conflito entre culturas, em Tânger, a alteridade é vivida como experiência interior. Um exílio de si.

“Grafito em Tânger”, como os demais poemas sobre as outras localidades do Marrocos, contém inscritos, no final, o nome da cidade e o ano de 1963. Uma primeira leitura poderia dar a entender que estes poemas foram escritos in loco, porque o lugar indicado em cada poema é também o objeto da exploração poética. Embora tendo todo o direito ao fingimento, parece-me que o poeta quis, acrescentando local e data, vincular o seu gesto criador ao ato concreto da viagem, da qual, certamente, ele possuia apontamentos que veio a utilizar na composição dos textos.

Em uma folha solta, encontrada entre seus pertences, Murilo Mendes anotou: “Carta geográfica. Falta fazer: Marrakech. Fez. Meknés. Rabat. (...)” E, numa outra nota ao mesmo livro, declara: “Profundamente impressionado por Marrocos, resumi os sinais deste encontro em algumas poesias de Convergência[10]. Estes apontamentos, ainda que breves e lacunares, indicam que a viagem se prolonga na memória e na imaginação do poeta, que lega ao leitor não um relato frio de suas impressões, mas instantâneos habilmente revelados, num paciente trabalho de depuração da imagem.

Concluo, portanto, esta reflexão com um poema de Ipotesi, uma das experiências aloglóticas de Murilo Mendes, sintomaticamente intitulado “Il viaggio”[11]– “A viagem” – que vou ler em tradução minha, pois ele nos dá a conhecer com exatidão o núcleo desta experiência que venho tentando descrever:

 

Serei um andróide? Sou talvez um produto

da diferença tecnológica

entre Juiz de Fora e Pequim.

 

No tempo da minha infância

eu queria ir do Brasil à China

a cavalo.

 

A viagem se realizou

ninguém se deu conta

nem eu

 

A frase “O grande sonho: ir do Brasil à China a cavalo”[12] de A idade do serrote migrando, de língua em língua, para o texto de Ipotesi nos leva a perguntar: a viagem existiu ou foi sonhada? Em que desertos esse cavalo marchou, travestido de camelo ou poeta? Terá ele sonhado em árabe com algum oásis? Terá lido o alcorão e o dicionário, e retornado, enfim, mais puro e sábio? Ninguém sabe.

Enfim, a viagem expande seu sentido particular de deslocamento no espaço e no tempo em direção ao da grande viagem existencial. Metáfora da vida, ela aponta também para o contrário: morte, soma de pequenas mortes parciais que se transformam em texto; morte, viagem sem relatos, sem memória, sem retorno. Filho pródigo de si mesmo, o poeta é o único que ousa retornar esvaziado de tudo, portando apenas alguns sinais da grande viagem “no silêncio horizontal / Tangível”.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BARTHES, Roland. Novos ensaios críticos: o grau zero da escritura. São Paulo, Cultrix, 1993.

CARDOSO, Sérgio. “O olhar do viajante (do etnólogo)”. In: O olhar. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

CARVALHO, Raimundo. Murilo Mendes: o olhar vertical. Dissertação de Mestrado, Belo Horizonte, FALE/UFMG, 1993.

CURTIUS, Ernst R. Literatura européia e Idade Média latina. São Paulo, Hucitec/Edusp, 1996.

FAUSTINO, Mário. Poesia-Experiência. São Paulo, Perspectiva, 1976.

GUIMARÃES, Júlio C. Territórios/Conjunções. Rio de Janeiro, Imago, 1993.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994.

OLIVEIRA, Vera Lúcia de. “A geografia metafísica de Murilo Mendes”. Letterature d’America, n. 23, Roma, p.43-68.

RIGOLOT, François. “Retórica do nome”. In: O Discurso da Poesia. Coimbra, Livraria Almadina, 1982.



[1] Algumas tentativas neste sentido já foram feitas. Ver: GUIMARÃES, 1993, p. 225-275 e OLIVEIRA, 1984, p. 43-68.

[2] CARVALHO, 1993

[3] CARDOSO, 1989, p. 347-360

[4] MENDES, 1994, p. 644

[5] MENDES, 1994, p. 1002

[6] Aproveito a laranja muriliana para lembrar a do poeta Mario Faustino, que, discorrendo sobre a percepção poética, diz ser ela “horizontal: a coisa no momento, agora, quase intemporal em toda a sua possível novidade, considerada em abstrato: e vertical: a coisa e sua história, não só sua própria ancestralidade, como também a história do conhecimento que os homens – poetas ou não – têm tido dessa mesma coisa”. Mário Faustino exemplifica dizendo que o poeta “vê a laranja concreta e abstratamente, ao mesmo tempo”, e que a percepção poética se verifica tanto no reino das coisas, como no das palavras (FAUSTINO, 1976, p. 51-2)

[7] MENDES, 1994, p. 1070

[8] Ver: BARTHES, 1993, p. 55-67; RIGOLOT, 1982, p. 137-160; e, CURTIUS, 1996, p. 605-11

[9] Ver: “Grafito em Marrakech”, “Grafito em Meknés”, “Grafito nos jardins de Chellah”, “Grafito em Fez”, “Grafito para a grande mesquita de Fez” e “Grafito na praça Djemaa El Fna”, de Convergência, e “”Marrakech”, de Ipotesi.

[10] MENDES, 1994, p. 1694

[11] Sarò un androide? Sono forse un prodotto/del divario tecnologico/tra Juiz de Fora e Pechino.//Nel tempo della mia infanzia/volevo andare dal Brasile in Cina/ a cavalo.//Il viaggio si è effetuato/nessuno se ne àccorto/ nemmeno io. MENDES, 1994, p. 1510

[12] MENDES, 1994, p. 896.